8. ARTES E ESPETCULOS 15.8.12

1. CULTURA  O REI EST MORTO. VIVA O REI
2. CINEMA  AS CURVAS DA ESTRADA
3. TELEVISO  IDEALISTA TEIMOSO
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. J.R. GUZZO  BAIXAR A BOLA

1. CULTURA  O REI EST MORTO. VIVA O REI
Uma viagem ao nascedouro da msica de Elvis Presley, no sul dos Estados Unidos, confirma a vitalidade de sua lenda.  Passados 35 anos de sua morte, ele ainda  o cone fundamental do rock.
SRGIO MARTINS, DE MENPHIS

     Robert Sullivan, 85 anos, caminha a passos pesados pelo auditrio municipal de Shreveport, cidade do estado da Louisiana, no sul dos Estados Unidos. Foi ali, em 1948, que ele iniciou a carreira de tcnico de udio, no programa de rdio Louisiana Hayride, que disputava a audincia dos amantes do country com o Grand Ole Opry. E foi ali que ele testemunhou o nascimento de uma lenda  talvez a maior delas  do rock: em outubro de 1954, fazia sua estreia no Hayride um jovem de cabelos castanhos (que trs anos depois seriam tingidos de preto) e um sorriso de lado que derretia as mulheres. Era Elvis Presley. Ele vinha de uma experincia infeliz no Grand Ole Opry, cujo pblico era tradicional demais para sua msica (do episdio, alis, ficou uma dessas lendas de rejeio prematura que fazem parte do folclore de toda grande estrela: um executivo da rdio de Nashville teria dito ao iniciante que ele deveria largar a msica e voltar a dirigir caminhes). O jovem roqueiro levava dez horas para se locomover de Memphis, no Tennessee, onde morava, at Shreveport, onde fazia duas entradas no programa. Em uma dessas noites, ele mal acabou de tocar e j saiu para viajar mais seis horas at Oklahoma, onde tinha outro show marcado, conta Sullivan. Em uma conversa com o tcnico, Elvis justificou todo esse esforo em termos que, a distncia, soam absurdos: Tenho de fazer isso enquanto sou jovem, porque daqui a um ano ningum mais vai se lembrar de mim. No dia 16 de agosto, completam-se 35 anos da morte de Elvis Presley, e ele continua lembrado como nunca. Mesmo depois dos Beatles, de Michael Jackson e de Madonna, o cantor ainda detm o posto de maior ganhador de discos de ouro e platina de todos os tempos  so 131 ao todo. Ele comeou a gravar em um perodo no qual a aferio de nmeros era nebulosa, mas estima-se que tenha vendido mais de 1 bilho de discos. Elvis deixou sua presena marcada a fogo no imaginrio pop. Sem nunca ter excursionado fora de seu pas (descontados a uns poucos shows no vizinho Canad), tornou-se uma figura global. Sua voz, sua postura de palco, sua indumentria so imediatamente reconhecveis, e ele  o astro mais parodiado de todos os tempos. No Brasil, neste ano, dois eventos vo celebrar a memria daquele que foi aclamado o Rei do Rock. A exposio Elvis Experience incluir 500 artigos pessoais do cantor, entre os quais o famoso e vistoso traje American Eagle, que ele usou no especial Aloha from Hawaii, de 1973. A abertura da mostra, em 5 de setembro, no Shopping Eldorado, em So Paulo, deve contar com a presena da viva do cantor, Priscilla Presley. Em outubro, So Paulo recebe Elvis Presley in Concert, da TCB Band, que tocou com Elvis de 1969 at sua morte  e vem acompanhada de projees em vdeo do cantor. As trs noites do show esto com lotao quase esgotada. Mostra e show confirmam o status de objeto de culto que Elvis conquistou antes de qualquer outro astro do rock. VEJA visitou a paisagem original do mito: as cidades de Tupelo, Memphis, Nashville e Nova Orleans, locais decisivos para a carreira e para a formao musical de Elvis. O resultado est na reportagem que o leitor tem em mos  e que se expande tanto na edio de VEJA para iPad quanto na on-line, com mais de vinte vdeos especialmente produzidos no Sul americano (navegue por eles a partir de veja.com.br/elvis).
     Este  o mistrio da democracia. Seus frutos brotam em circunstncias inesperadas e em solos pouco cultivados pelo homem, disse o presidente Woodrow Wilson sobre Abraham Lincoln, o lenhador que chegou  Casa Branca. A despeito de seu ttulo de realeza roqueira, Elvis Aaron Presley  tambm um desses frutos inesperados da democracia. Sua biografia tem aquela combinao de predestinao e adversidade que est na base do chamado sonho americano. Em certa medida, seu rocknroll  a expresso do esprito confiante da sociedade americana no ps-guerra: ostensivamente barulhento, rpido, agressivo, mas repleto da mais inocente vitalidade. No, Elvis no criou o rocknroll. Mas foi sua maior estrela. Nunca estudou musica, mas tinha um impressionante conhecimento intuitivo das expresses populares do Sul americano: gospel, country, blues e rhythmnblues, todos os gneros que serviram de base para o rocknroll. Elvis no era compositor mas colocou personalidade em tudo o que gravou. Tomem-se, por exemplo, as duas msicas que faziam parte do seu primeiro compacto na Sun Records, de Memphis. Thats All Right, de Arthur Big Boy Crudup, era uma das prediletas de Elvis desde os tempos em que morava em sua cidade natal, Tupelo. Num discreto lance criativo, ele acrescentou  letra um expressivo weelll na introduo. Blue Moon of Kentucky de Bill Monroe, recebeu um andamento acelerado, que deixou uma cano por natureza interiorana mais prxima das metrpoles. Elvis falava muito diretamente com o pblico adolescente, e para isso foi essencial o apelo sexual no s de sua msica, mas de seu rebolado no palco (celebremente censurado no programa de TV de Ed Sullivan). A gente tocava de acordo com os movimentos do traseiro dele, confessou certa vez o guitarrista Scotty Moore. que acompanhou Elvis por mais de uma dcada. As meninas suspiravam pelo dolo, e os rapazes tentavam imit-lo: topete, casaco de couro e ar insolente. A febre Elvis atravessou o Atlntico, seduzindo os jovens Paul McCartney e John Lennon. Os Beatles no teriam existido se Elvis Presley no houvesse aparecido antes, reconheceu Lennon.
     O Rei do Rock teve a mais humilde das origens. Nasceu em 8 de janeiro de 1935 em Tupelo, Mississippi. Hoje com 36.000 habitantes, a cidade s tem Elvis para oferecer ao visitante. Esto l a casinha de dois cmodos onde ele nasceu e, reconstruda nas proximidades, a igreja da Assembleia de Deus onde ele cantava hinos religiosos. Os Presley viviam um nadinha acima da linha da misria. Gladys, a me, era costureira. Vernon, o pai, era caminhoneiro  e chegou a passar oito meses na priso por ter adulterado o valor de um cheque. A devoo religiosa da famlia acompanhou Elvis at o fim da vida. Ele gravou discos com cnticos, como Peace in lhe Valley. Peter Guralnick, provavelmente seu melhor bigrafo, especula que Elvis, se vivesse mais tempo, teria aos poucos se transmutado em um cantor de gospel.
     O primeiro violo foi presente pelo aniversrio de 11 anos. Fora da igreja, o garoto rezava para cantores de blues e country como Arthur Big Boy Crudup e Bill Monroe. Os Presley mudaram-se de Tupelo para Memphis em 1948, em busca de melhores condies de trabalho. As condies culturais, essas de fato melhoraram. Elvis passou a frequentar a Beale Street, reduto bomio da cidade, mergulhando no blues urbano de B.B. King e Furry Lewis (a Beale Street atual tem uma esttua de Elvis, mas no  nem a sombra do que foi: tornou-se reduto de bandas cover de rock farofa. A Memphis de Elvis ainda resiste em um inferninho chamado Wild Bills, na periferia da cidade). Elvis pensava em se tornar motorista de caminho, como o pai. Mudou seus planos quando entrou no estdio da Sun Records e pagou 4 dlares para supostamente gravar um compacto para sua me, com as canes My Happiness e Thats When Your Heartache Begins. Uma secretria da Sun encantou-se com o jovem cantor e alertou seu chefe, Sam Phillips, para aquele talento potencial. Phillips, a princpio, manteve-se ctico, mas recrutou o guitarrista Scotty Moore e o baixista Bill Black para que fizessem um teste com o novato. Elvis acabou contratado e se tornou um sucesso local. Phillips venderia seu passe por modestos 35.000 dlares  gravadora RCA, na qual ele afinal ganharia o status de astro maior do rock americano (com substancial ajuda do estdio Paramount: Elvis consolidou sua imagem popular em 31 filmes). O negcio j foi considerado uma mancada indesculpvel de Phillips, mas, considerando que o futuro do jovem artista ento era incerto, tratou-se de uma deciso razovel. Philips saldou as dvidas da Sun Records e continuou a investir em novos talentos, como Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e Johnny Cash.
     As explicaes pretensamente polticas para o sucesso de Elvis tendem a menosprezar seu talento e carisma, transformando-o em usurpador branco dos ritmos criados pelos negros. Contraditoriamente, a paixo do cantor pela msica negra parece t-lo transformado em racista. Em sua autobiografia, o bluesman B.B. King pe essa bobagem no devido lugar. Elvis foi um grande divulgador da minha msica, diz.  fato, porm, que a crescente politizao do rock a partir dos anos 60 abalaria o estrelato de Elvis. Ele continuou vendendo discos e fazendo shows de imenso sucesso, sobretudo em Las Vegas. Mas j no estava na vanguarda. Os ingleses do Led Zeppelin visitaram Levis em Graceland, sua manso em Memphis, mas foram exceo: para os artistas daquela gerao, ele era ultrapassado e careta. Afinal, mostrara-se todo orgulhoso em seu uniforme militar, quando serviu no Exrcito, de 1958 a 1960 (alis, foi na condio de pracinha que fez sua nica viagem  Europa, servindo na Alemanha). Em 1970, piorou sua imagem ao visitar o presidente Richard Nixon na Casa Branca. Foi proclamado embaixador da juventude e aproveitou a ocasio para criticar os Beatles e os Rolling Stones por incentivarem o consumo de drogas (uma triste ironia, se lembrarmos que os barbitricos foram um fator na morte de Elvis). Para alm da poltica, censura-se a breguice flamejante de Elvis em seus shows de Las Vegas nesse perodo. So dessa fase os macaces brancos que se tornaram os favoritos entre os imitadores (exceo notvel: Bono, do U2, preferiu o casaco de couro preto de Jailhouse Rock quando homenageou Elvis na turn Zoo TV).
     Fui adolescente na dcada de 70 e conheci o Elvis gordo. Demorei a perceber seu talento como entertainer, diz o antroplogo Nick Spitzer, estudioso da msica popular americana. No h como negar que a veia kitsch corria forte em Elvis, conjugando certo provincianismo regional  tendncia universal que os novos-ricos tm para a ostentao. Isso  palpvel em Graceland, hoje um roteiro de peregrinao para os fs. Entre outras aberraes do luxo cafona, a casa tem um quarto com motivos havaianos, e a sala de TV  decorada com um imenso macaco de porcelana.
     No h muito brilho nos ltimos anos de Elvis. A separao de Priscilla  que deixou Graceland na noite de Natal de 1971  foi barulhenta e dolorosa. Elvis viveu cercado de uma turma de amigos e guarda-costas chamados de a mfia de Memphis, tipos parasitrios que faziam os mais diversos servios: arranjavam mulheres, pagavam contas, ameaavam inimigos. At hoje, em Memphis, h gente vivendo dessa singular profisso: amigo do Rei. Quanto voc pode pagar?, perguntam sempre que encontram um jornalista interessado no passado de Elvis (no, nenhum deles pegou carona nesta reportagem). Ao ser encontrado morto no banheiro de Graceland, em 1977, Elvis estava, mais do que gordo, inchado  resultado de uma dieta  base de sanduches de banana com manteiga de amendoim, bacon e doses pantagrulicas de tranquilizantes. O dolo, o cone  estes permanecem inalterados e esbeltos, com toda a exuberncia sexy do melhor rocknroll.

O PAS CHAMADO ELVIS
As cidades americanas que fizeram parte da formao musical do dolo

LAS VEGAS
Em 1969, Elvis Presley iniciou uma temporada de sucesso em Las Vegas. Foi sua segunda tentativa na cidade do jogo  a primeira temporada, em 1956, no fora bem-sucedida. O show de Las Vegas eternizou a imagem de Elvis Presley com traje branco (na foto, o macaco conhecido como White Matador). Ele era acompanhado por uma orquestra, por vocalistas e pela TCB Band, liderada pelo guitarrista James Burton. Seus sucessos de outrora ganharam ento arranjos mais suntuosos. A cidade tambm foi cenrio de um dos filmes mais populares do dolo, Amor a Toda Velocidade (1964), com Ann-Margret.

MEMPHIS
A famlia de Elvis Presley mudou-se de Tupelo para Memphis em 1948. Est l a manso que se tornou a meca dos fs  Graceland. Em Memphis, Elvis absorveu influncias urbanas, como o blues eletrificado de B.B. King. Em 1969, no American Sound Studio, gravou From Elvis in Memphis, que trazia In the Ghetto, uma das msicas mais engajadas de seu repertrio. Tambm trabalharia com msicos da Stax, gravadora de soul music, em 1973.

NASHVILLE
Elvis era apaixonado pelo country (o lado B de seu primeiro compacto foi um clssico do gnero, Blue Moon of Kentucky). Mas Nashville, a capital do country no foi gentil com ele: em 1954, Elvis foi humilhado pelos organizadores do popular programa radiofnico Grand Ole Opry. Quando ficou famoso, reinou no estdio B da RCA, cuja especialidade era o som de Nashville, country mais prximo  msica pop.

TUPELO
Foi onde Elvis Presley nasceu, em 8 de janeiro de 1935. Ali ele teve seus primeiros encontros com a msica, especialmente o gospel, na igreja Assembleia de Deus, e o blues. Ainda criana, teve seu contato inicial com o showbiz, participando do programa de rdio do cantor country Mississippi Slim.

SHREVEPORT
Foi onde nasceu o mito Elvis Presley. Em 1954, ele foi uma das atraes do Louisiana Hayride, o rival radiofnico do Grand Ole Opry, de Nashville. Elvis tinha em sua banda os talentosos Scotty Moore (guitarra) e Bill Black (baixo). E roubou o baterista do programa, DJ. Fontana  que dizia batucar acompanhando os rebolados do cantor.

NOVA ORLEANS
Capital da msica negra americana, a cidade foi cenrio de dois filmes de Elvis. Em King Creole (1958), lanado no Brasil com o ttulo bobo de Balada Sangrenta, ele interpreta um cantor de rocknroll  ou seja, ele mesmo. Em 1966, Elvis e Nova Orleans voltam a figurar em Entre a Loira e a Morena, com uma trilha inspirada no no rock, mas no dixieland, ritmo da cidade que foi o antecessor do jazz.

HOMEM DE FAMLIA, OU QUASE 
Elvis, criana, com seus pais (acima), e com a mulher, Priscilla, e a filha, Lisa Marie, nascida em 1968: uma infncia pobre, marcada pelo perodo que o pai passou na priso, e depois anos de opulncia. O casamento, porm, foi problemtico. Elvis recusava-se a fazer sexo com a mulher depois que ela teve a filha. Priscilla resolveu suas carncias com um professor de carat, e terminou saindo de casa em 1971.

GUITARRISTA DAS LENDAS
O avio que levava o guitarrista James Burton e outros membros da banda de Elvis Presley de Los Angeles para Portland, no Maine, fez uma parada para abastecer  e foi ento que eles receberam a notcia: Elvis havia morrido. Foi o fim de uma parceria que comeou em 1969, quando Burton, que j havia recusado antes um convite de Elvis (estava gravando um disco com outra lenda, Frank Sinatra), afinal topou acompanha-lo em suas temporadas em Las Vegas.  Na noite da estreia, a gente ouvia os gritos das fs do camarim, e Elvis estava bem nervoso.  Mas bastou dar dois passos no palco para ter o pblico na mo.  Fez uma tremenda performance, lembra.  Elvis incorporou vrias msicas ao repertrio por sugesto de Burton  foi assim com Im So Lonesome I Could Cry, do cantor country Hank Williams.  Em 1997, Burton remontou a TCB Band, que acompanhara o Rei do Rock at a morte, para o Elvis Presley Experience, show em que o cantor  revivido em imagens no telo (a apresentao vir ao Brasil em outubro).   impressionante. Elvis parece estar ali, garante Burton, hoje com 72 anos.

BOM MENINO MAU - Elvis mexe as ancas danando Jailhouse Rock e posa com uniforme do Exrcito ( dir.): um astro sexy que acabou passando por careta.
O TEMPLO CAFONA - Graceland (acima), a manso de Elvis: comprada pelo cantor em 1957, ela hoje  um museu para os fs. Foi aberta para visitao em 1982 e recebe mais de 600.000 pessoas por ano. A decorao tem muito da personalidade de Elvis.

NA ALEGRIA E NA TRISTEZA
Quando Elvis fez um show em Norman, Oklahoma, Jeff Lewis, nativo da cidade, estava l. Tomou um choque: o homem gordo e inchado que subiu ao palco  e que morreria alguns meses depois, em agosto de 1977  era muito diferente da figura esguia e rebolante que o f tinha em mente. Mas ele ainda tinha o mesmo vozeiro, diz Lewis, hoje com 45 anos. O f tornou-se um dos muitos impersonators (imitadores) de Elvis. E ganha a vida com isso: divide-se entre apresentaes em clubes noturnos e nas cerimnias da Rhinestone Wedding Chapel, uma casa de Nashville que celebra casamentos rpidos. A cerimnia custa em torno de 250 dlares (um pouco mais se os noivos quiserem fazer uma tatuagem na loja ao lado). Lewis tambm excursiona com um imitador de Freddie Mercury, numa turn apropriadamente intitulada King & Queen.

HOMENAGEM EM DUAS RODAS
Com 150 integrantes, a gangue conhecida como Rolling Elvi roda por Nova Orleans h nove anos. ramos todos fs de Elvis Presley e queramos homenagear o rei de um modo original, diz Scott Galante, um dos fundadores do grupo. Trata-se de uma gangue de boa ndole, que ajuda instituies de caridade e faz suas grandes reunies em duas datas: o Mardi Gras, Carnaval de Nova Orleans, e o Natal. As motos vo de humildes lambretas a possantes Harley-Davidson, e os motoqueiros tm as mais diversas idades e tipos fsicos.  obrigatrio, porm, caracterizar-se com as roupas e o cabelo que so marca registrada do dolo. Como  muito comum entre os inmeros grupos de fs que imitam Elvis Presley, essa  uma homenagem que tem jeito de pardia  mas  serssima.

RELQUIA CAPILAR
Em 1986, Nick Spitzer, um antroplogo especializado na cultura musical americana, organizou uma srie de shows sobre pioneiros do rock para o Instituto Smithsonian, onde trabalhava como curador. Um dos convidados, o guitarrista Paul Burlison, deu a ele um presente inusitado: um tufo de cabelos que, afirmou, sara da cabea de Elvis (segundo Burlison, ele e o dolo frequentavam o mesmo barbeiro). A princpio, Spitzer deixava que amigos e visitantes tocassem os cabelos castanhos pintados de preto  mas, como a quantidade de fios comeou a minguar, ele decidiu conserv-los dentro de um quadro que tem pendurado no banheiro de casa, em Nova Orleans. O antroplogo j ouviu at que o cabelo tem propriedades milagrosas e, sobretudo, afrodisacas. O episdio todo me fez lembrar o tempo em que a Igreja Catlica vendia relquias de santos, brinca Spitzer.

A OUTRA GRACELAND
Conhece Jennifer Lopez? Ela esteve aqui na semana passada. Shirley MacLaine tambm, bravateia Paul McLeod, 69 anos, dono e, digamos, curador de Graceland Too, espcie de museu no oficial dedicado  memria de Elvis Presley. O acervo est todo na prpria casa de McLeod, em Holly Springs, nos arredores de Memphis (onde est a verdadeira Graceland). Esse curioso muselogo, que assistiu a mais de 100 shows de seu dolo, atende os turistas at mesmo  noite, para exibir sua coleo de 35.000 vinis, 25.000 CDs e cacarecos diversos  incluindo, no jardim, uma rplica do Cadillac rosa de Elvis. Ele gosta de conduzir os visitantes pelo brao, dando longas explicaes (nem sempre inteligveis, por causa de uma dentadura meio solta). McLeod diz que j recusou ofertas na altura dos milhes de dlares pelo acervo. Mas o principal item do museu  ele mesmo  um dos mais extremados entre os fs de Elvis.

SUCESSO IMPREVISVEL
Robert Sullivan trabalhava como tcnico de som do Louisiana Hayride, programa de rdio ao vivo dedicado  msica country e transmitido de Shreveport, quando por l apareceu um garoto chamado Elvis Presley. Sua primeira apresentao, em 1954, foi uma catstrofe. Ele chegou parecendo um caubi, com umas botas estranhas. E como suava, lembra Sullivan, hoje com 85 anos. Mas, na segunda entrada, a plateia j tinha sido conquistada por ele. Poucas semanas depois, Presley j trazia para o estdio um pblico jovem que jamais se havia interessado pelas atraes do Louisiana Hayride (e que voltaria a perder o interesse pelo show quando Elvis o deixou, um ano e meio mais tarde, no caminho para o estrelato). Sullivan se recorda de Presley como um grande conquistador. E no s de jovenzinhas: certa vez, ele teria exibido no estdio um relgio caro que havia ganho de uma senhora. O tcnico de som admite que nunca se deu conta do potencial de Elvis: O menino era talentoso. Mas a gente achava que o sucesso dele iria durar no mximo um ano.


2. CINEMA  AS CURVAS DA ESTRADA
Dois solitrios, um homem e um menino, tentam acertar o passo em A Beira do Caminho, do diretor de 2 Filhos de Francisco.

     Cerrado, sol, caminho, esttua de Nossa Senhora de Ftima no console, Roberto Carlos no rdio e um menino sozinho no acostamento: em A Beira do Caminho (Brasil, 2012), desde sexta-feira em cartaz, o diretor carioca Breno Silveira retoma a ideia de tecer um drama pessoal em torno de um conjunto de elementos essenciais da cultura popular. E, como em Era Uma Vez... e particularmente em 2 Filhos de Francisco, o faz com limpeza e eficcia admirveis. Duda, o garoto de seus 11 anos que est na margem da estrada,  rfo; acabou de perder a me e nunca conheceu o pai. Mas guarda, dele, uma foto pequenininha com um endereo paulistano anotado no verso. Sem nada a perder, quer rumar para So Paulo para procurar o pai. E, nas suas fantasias, j vai se apaixonando por ele e imaginando que o sentimento ser recproco. Joo, o motorista cujo caminho Duda invade e do qual se recusa a sair,  to taciturno quanto o menino  expansivo: fala muito pouco, e quando fala  rspido. Gestos de carinho ou consolo no fazem parte de seu repertrio; e, no entanto, depois de largar Duda em Petrolina (PE), de onde ser mais fcil ele arranjar outra carona, Joo muda de ideia e volta para peg-lo. Trata-se de uma virada clssica, quase inevitvel, em histrias de pessoas enjeitadas. Mas o diretor a trata com honestidade irrepreensvel, de maneira que o artifcio deixa de s-lo: no bom roteiro de Patrcia Andrade, colaboradora habitual de Silveira, Joo precisa de Duda ainda mais do que Duda precisa de Joo.
     A premissa, portanto,  sentimental, assim como a matria-prima da qual ela se originou  um punhado de canes de Roberto Carlos, das quais quatro, entre elas a linda O Porto, foram liberadas pelo cantor. O que no significa, de forma nenhuma, que o resultado seja piegas: , isso sim, comovente, em grande parte porque a honestidade de Silveira  retribuda em igual medida pela sinceridade e comedimento de seus protagonistas  o extraordinrio Joo Miguel, de Xingu, e o talento nato Vinicius Nascimento. No bastassem a graa, a inteligncia de Nascimento e seu olhar direto, ele ainda  a rara criana que no corteja a cmera e no tenta parecer nem mais infantil nem mais precoce do que realmente . Afinados (e s vezes visivelmente surpreendidos) um com o outro, os dois atores,  medida que percorrem estradas sem fim na boleia do caminho, vo dando corpo e credibilidade  ideia de que famlias formadas por mera necessidade podem s vezes manter-se juntas, quando tentam encontrar tambm afinidade. Com seus dilogos cortados de todo o suprfluo, a fotografia nostlgica de Lula Carvalho para o serto (baiano, quase sempre) e a msica to apropriada de Roberto tocando ao fundo ou servindo de conversa para os dois personagens. A Beira do Caminho deixa a melhor das sensaes: a de que seu diretor, em vez de tentar manipular, se deixou tambm ele levar.
ISABELA BOSCOV


3. TELEVISO  IDEALISTA TEIMOSO
Em The West Wing, Aaron Sorkin tentou consertar o governo. Em The Newsroom, seu alvo  o jornalismo.

     Foi  base de uma postura evasiva que Will McAvoy (Jeff Daniels) se tornou o segundo ncora de maior audincia da TV a cabo. Mas, em um debate com estudantes de jornalismo, ele afinal mostra os dentes que sempre escondeu. Na sua opinio, o que faz dos Estados Unidos a maior nao do planeta?, pergunta uma aluna. Oportunidade, diversidade, liberdade, respondem monotonamente os outros debatedores. Will tenta sair pela tangente, mas por fim contesta: E quem diz que  isso que somos?, replica, enfileirando uma enxurrada de estatsticas negativas. A plateia de inocentes est consternada, e Will est libertado: falou das coisas como as coisas so. E, por sua vez, Aaron Sorkin, o criador de The Newsroom, em exibio pela HBO, j se plantou assim com os dois ps em um territrio que  em grande parte de sua inveno  o da Amrica como ela deveria ser. Durante os anos em que esteve  frente da srie The West Wing, Sorkin conjurou uma Casa Branca em que o presidente e seus assessores erravam, sim, mas por serem humanos, nunca por serem venais  um ideal da governana norteada pela moralidade e pelo bem maior. Agora, em Newsroom, ele quer demonstrar  imprensa tudo o que ela poderia ser.
     Nem todo mundo, claro, acha a Amrica de Sorkin ideal ou quer viver nela  nem que seja pelo fato de seus personagens, sempre que abrem a boca, recitarem editoriais  velocidade de 100 palavras por segundo (a artilharia verbal de Sorkin foi um dos pontos altos tambm de A Rede Social, que lhe deu o Oscar de roteiro). H umas tantas contradies, ainda, das quais Sorkin passa ao largo. A mais vital delas  que o noticirio com que Will e sua produtora e ex-namorada Mackenzie (Emily Mortimer) querem informar de maneira responsvel o telespectador tem de se desprender de ditames vulgares como audincia e receita publicitria  ao passo que, no mundo real, esses so os mecanismos com que os veculos garantem sua independncia de associaes com governos, lobbies e faces. Outro ponto a mencionar  que no so os ncoras brandos como Will que hoje dominam a audincia americana  so os da variedade truculenta, como os da Fox News, que Sorkin, alis, adora desancar em sua srie.
     Feitas essas ressalvas, contudo, Newsroom  ainda assim Aaron Sorkin no seu melhor: personagens carismticos (Alison Pill  um achado como a novata da equipe), dilogos ultra-articulados e deliciosos  e, sim, a crena teimosa de seu criador de que o mundo em geral, e os Estados Unidos em particular, sempre poderiam ser melhores. De uma coisa ele no pode se queixar: s em um pas que dedica respeito devocional  liberdade de expresso ele poderia fazer as invectivas que faz, e dar nome aos bois como d, com amparo da lei e paz de esprito. 
ISABELA BOSCOV


4. VEJA RECOMENDA
DISCOS
CRAZY FOR YOU E THE ONLY PLACE,
BEST COAST (DECK)
 A dupla americana formada pela cantora Bethany Cosentino e pelo multi-instrumentista Bobb Bruno compe melodias gostosas e de fcil assimilao, muito distantes do rock barulhento de seus pares do cenrio alternativo. A matriz do Best Coast est na surf music e no rock agridoce de bandas dos anos 70. Crazy for You e The Only Place esto sendo lanados no Brasil de uma tacada s, para aproveitar a visita do grupo, que toca em outubro num festival de rock em So Paulo. Crazy for You, de 2010,  direto, com canes rpidas e letras que parecem sadas do dirio de uma garota adolescente, como a fofa Goodbye, dedicada a um gato. Leve e ainda mais acessvel. The Only Place, deste ano, lembra o rock lrico de um R.E.M. A balada No One Like You  de uma doura irresistvel.

BLU-RAY
PURA ADRENALINA (NUIT BLANCHE, FRANA/BLGICA/LUXEMBURGO, 2011. CALIFRNIA)
 O aviso de praxe: desconsidere-se o medonho ttulo nacional desta produo francesa de inspirao quase que experimental, cujo ttulo original significa noite em claro. No prlogo, o policial Vincent (Tomer Sisley) rouba, junto com um colega, uma sacola com cerca de 10 quilos de cocana de um mafioso. A ao  mal planejada; Vincent  reconhecido; e, no mesmo dia, o mafioso sequestra o filho do policial e o leva para seu imenso clube noturno para que seja feita uma troca. Desde o instante em que Vincent adentra o clube, e por todas as horas seguintes, ele estar envolvido em uma combinao de fuga (dos mafiosos e de outros policiais) e de caada (ao filho) cada vez mais frentica, e to bem orquestrada pelo diretor Frdric Jardin que o prprio espectador termina sentindo-se exaurido.

LIVRO
LIMA BARRETO: UMA AUTOBIOGRAFIA LITERRIA, ORGANIZADA POR ANTONIO ARNONI PRADO (EDITORA 34; 200 PGINAS; 39 REAIS)
 Lima Barreto (1881-1922) ocupa um lugar ambivalente no cnone literrio brasileiro. Negro, alcolatra, satirista de gnio, esnobado pelos meios intelectuais cariocas de sua poca, ele  ao mesmo tempo um clssico inconteste e um escritor marginal. O livro organizado por Antonio Arnoni Prado, da Unicamp, no traz textos inditos. Sua originalidade est no modo como o crtico recortou e organizou trechos dispersos de dirios, crnicas, cartas e obras de fico de Lima Barreto. Ordenados por tema, esses excertos vo compondo um mosaico, no qual se tornam mais claras a personalidade e as concepes sociais, polticas e literrias do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. A covardia mental e moral do Brasil no permite movimentos de independncia, sentencia Lima Barreto.

OS MAIS VENDIDOS VEJA
 O mago brasileiro est de volta com seu incansvel expediente oracular. Em Manuscrito Encontrado em Accra (Sextante: 176 pginas: 19,90 reais) sexto lugar na lista dos mais vendidos em fico , Paulo Coelho novamente distribui brindes plsticos de otimismo e perseverana, apresentados como prolas da mais profunda busca interior e irrefutvel sabedoria ancestral. O romance transcreve um fictcio manuscrito de autoria de um sbio grego. O documento teria sido encontrado por um certo sir Walter Wilkinson na mesma rea do Alto Egito onde j foram descobertos certos evangelhos apcrifos. O narrador Paulo Coelho traveste-se ento de fillogo, traduzindo a mensagem inspiradora que o sbio entregou a judeus, cristos e muulmanos reunidos  sua volta em Jerusalm, em 1099, na vspera da invaso da cidade pelos Cruzados. Em linguagem que lembra um vivaldino discursando a uma multido de incautos (para escutarmos as palavras do amor,  preciso deixar que ele se aproxime), o autor mostra que conhece seus leitores melhor do que ningum: escreve exatamente aquilo que eles desejam ouvir.
MARIO MENDES

EXPOSIO
WILLY RIZZO NO BRASIL (EM CARTAZ NO MUSEU BRASILEIRO DA ESCULTURA, EM SO PAULO, AT 2 DE SETEMBRO)
 O italiano Willy Rizzo  o paparazzo original. Ele comeou a fotografar a dolce vita bem antes de ela ser celebrada por Fellini nos anos 60. Talento precoce, Rizzo, recm-sado da adolescncia  depois da II Guerra , armou-se com uma cmera fotogrfica e saiu clicando o brilho das estrelas no Festival de Cinema de Cannes com espontaneidade at ento indita. Imprimiu um estilo irreverente e despachado sobretudo em dois ttulos clssicos da imprensa internacional criados na poca, as revistas Paris Match e Elle. Esta mostra  a maior retrospectiva j feita do trabalho de Rizzo  hoje com 84 anos e ainda na ativa. Alm dos instantneos de paparazzo, h uma srie de retratos, fotos de moda e imagens do Carnaval carioca que no eram exibidos desde sua publicao, em 1959. Entre os notveis capturados pelo fotgrafo esto Picasso, Coco Chanel, Brigitte Bardot, Salvador Dali, Marilyn Monroe (Rizzo foi um dos ltimos a fotograf-la) e, claro, Federico Fellini. Um amplo retrato do mundo no tempo em que as celebridades exalavam glamour e a fama no durava apenas quinze minutos.


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
4. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
5. Herana  Christopher Paolini. ROCCO
6. Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE
7. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
8. Assassins Creed  A Cruzada Secreta  Oliver Bowden. GALERA RECORD
9. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.  Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO

NO FICO
1. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
2. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
3. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
4. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
5. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
6. O Livro da Filosofia  Vrios. GLOBO
7. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA
8. One Direction  lbum Oficial  Sarah Delmege. PRUMO
9. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR
10. Amy  A Histria da Cantora Contada por Seu Pai  Mitch Winehouse. RECORD

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD
2. Agapinho  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
3. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
4. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
5. Transformando Suor em Ouro  Bernardinho. SEXTANTE
6. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
7. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE
8. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA
9. A Parisiense  Ines de la Fressange. INTRNSECA
10. Orfandades  O Destino das Ausncias  Pe. Fbio de Melo. PLANETA


6. J.R. GUZZO  BAIXAR A BOLA
     De quatro em quatro anos, por ocasio da Olimpada e sob a influncia do colossal volume de espao e de tempo que os meios de comunicao decidem dedicar ao tema, o Brasil desenvolve uma sbita e desesperada paixo por esportes que no interessam praticamente a ningum. Falando francamente: fora os prprios atletas, suas famlias e um magro crculo de aficionados, quem est ligando, por exemplo, para o futebol feminino, os 400 metros de nado medley ou as competies de arco e flecha? Uma ou outra modalidade, como vlei ou basquete, ainda tem algum pblico fora dos Jogos, mas assim que acaba a cerimnia de encerramento tudo volta  apatia de sempre. De onde vem, ento, essa agonia por medalhas que tortura tanta gente no perodo de disputa olmpica? O que se sabe, por enquanto,  que no so as competies, em si mesmas, a grande atrao; o que interessa  a contabilidade de ouros, pratas e bronzes que o Brasil consegue levar para casa. Como essa soma, por melhor que seja em relao ao passado, nunca chega a colocar o Brasil no peloto de frente, o pblico se v condenado a ouvir que h uma crise grave em tudo aquilo que os brasileiros perdem, do basquete feminino ao remo masculino. No passa pela cabea de quase ningum, em condies normais, que qualquer derrota dessas possa ser um problema. Por que seria? Durante a Olimpada, porm, tudo se torna um caso de extrema-uno.
     Se o que realmente interessa  o nmero de medalhas, e no o esporte, a situao fica realmente difcil, pois ningum ainda descobriu como se faz para conseguir um nmero ideal de vitrias na Olimpada. No  prtico, ao que parece, pensar na criao de um sistema de cotas para a distribuio das medalhas, apesar da alta estima que o governo brasileiro e seus admiradores tm por esse tipo de soluo. Faltam negros nas universidades? Criam-se cotas para equilibrar os nmeros. Faltam empregos para deficientes fsicos? Criam-se cotas para forar sua contratao pelas empresas. Faltam medalhas de ouro nos Jogos Olmpicos? Por que no fixar, ento, uma cota mnima de pdios para cada pas participante? A triste verdade  que existe uma concentrao indiscutvel de medalhas, principalmente de ouro, nas mos de uma minoria; num mundo com quase 200 pases, os cinco primeiros ganhadores ficam com mais ouros que todos os outros somados. E o que dizer de casos extremos como o do nadador americano Michael Phelps? Com apenas 27 anos de idade, e apenas entre 2004 e 2012, o rapaz acumulou sozinho dezenove medalhas de ouro  no muito menos que o total ganho pelo Brasil inteiro, em todas as modalidades, desde que disputou sua primeira Olimpada, em 1920. Onde est a justia de um sistema que leva a tais desigualdades? Cotas iriam garantir, certamente, uma distribuio mais democrtica das medalhas entre os competidores. Um jeito de fazer isso, por exemplo, seria obrigar Phelps a s cair na piscina quando os outros j estivessem na metade do percurso, ou segurar por cinco segundos a largada de Usain Bolt na corrida dos 100 metros livres. Outra soluo, bem mais direta e segura, seria distribuir logo no incio dos Jogos um nmero mnimo de medalhas a cada pas, de acordo com critrios destinados a promover um pouco mais de igualdade social. O Brasil, em razo do tamanho de seu territrio, populao de 190 milhes de habitantes e injustias sofridas no passado, poderia comear, digamos, com pelo menos dez medalhas de ouro; o que conseguisse ganhar alm disso seria lucro.
     Como ningum vai aceitar nada parecido, a comear pelos atletas brasileiros (e todos os demais), a sada mais razovel  iniciar, desde j, um esforo para encarar com um pouco mais de calma toda essa histria de Olimpada  at porque a prxima ser no Rio de Janeiro, e os nveis de histeria em relao a medalhas j prometem superar tudo o que se viu at agora. O Brasil, principalmente por causa da presso feita pela mdia, tem muita dificuldade para aceitar a ideia de que os adversrios ganham uma competio por terem chegado na frente, saltado mais alto ou feito mais pontos. Tudo  uma questo de honra nacional  de atitude, entrega, superao, vergonha na cara. O atleta tem de ser guerreiro etc. Quando ganhamos alguma coisa, h uma gritaria alucinada:  o Brasil!  o Brasil!. No ;  apenas o mrito individual de quem ganhou. Quando perdemos,  o mesmo barulho, s que ao contrrio: faltou raa, respeito, apoio. Est mais do que na hora de baixar essa bola.

